quinta-feira, 11 de julho de 2013
Diário de 2010 - 3 de Maio
A vontade de estar em silêncio impera.
O círculo fecha-se sobre mim própria.
Sinto-me idiota quando sou simpática e as palavras amigáveis traem a fúria em espiral que domino.
O que faz sentido?
O vento nos cabelos. O sabor do sal na boca. Fechar os olhos e sentir o sol intenso. Ter um arrepio de frio. Sonhar com o saltitar de um melro.
O que custa?
Respirar de mais. Sufocar na imensidão daquilo que tenho para ser. A incapacidade de me concretiza por ser mais. Sentir a inutilidade do esforço. E o saber da possibilidade de quebrar.
O Exílio.
Uma constante: o não saber o que falar em comunidade. Tenho a sensação que caso tivesse que almoçar com alguém, estar um período de tempo obrigatoriamente com alguém, esse período corresponderia àqueles chamados silêncios de morte.
Porque há tantas vezes nada para dizer e tanto para ser dito.
O círculo fecha-se. Eu sou o círculo.
Não há pares.
Não há comunhão.
Apenas espaço de mim.
E esse espaço não é compreendido.
Do exterior surgem urgências. Exigências.
E não compreendo o porquê. Afinal o que poderá estar assim tão diferente. O que aconteceu ao mundo que o transtornou de tal forma, de tal maneira, que o levou ao irreconhecimento.
perante os olhos alheios, eu deixei de ser eu.
deixei de ser eu quando procurei restabelecer a Ordem em mim. Porque em paz não me encontrava.
Descansar é preciso.
E parece que os restantes não querem a paz do próximo.
sim, de alguma forma as coisas vão deixando de ter importância.
Mas como comunicar o incomunicável? Como dar a conhecer o que apenas é sentido? Como fazer ver aquilo que eu vejo? Como fazer chegar o batimento cardíaco da serenidade do mar?
De que vale? Se o que me está na alma é apenas considerado como mero facto e não essência daquilo que me preenche?
Perante abismal existência, sorri-se paralelamente; fala-se paralelamente; convive-se paralelamente... sentindo o fosso da união dos dois mundos.
Procura-se estabelecer a ordem.
Girar.
