domingo, 7 de julho de 2013

Diário de 2010 - 1 de Maio

 
 
Inicio aqui, sem corresponder à data exata, aquilo que poderá ser um relato de viagem ao ser. Quando abri esta agenda; e note-se que nunca gostei de agendas, pois é-me difícil manobrar a existência com a ordem cronológica real; que achei curiosa a coincidência da pintura com o título "O Exílio", com o meu estado existencial atual. Foram precisos 31 anos de existência factual para compreender a impossibilidade de me dar a conhecer aos meus iguais.
Cada dia que passa torna-se cada vez mais consciente a pequenez e a mediocridade do ser humano, comparando com os restantes animais.
Voltando ao tema do exílio... tornou-se claro hoje que por mais que eu queira ou tente dar-me a conhecer, ou mais, dar-me a entender àqueles que comigo partilham dores e alegrias, é tarefa praticamente impossível. Por isso, tal como já havia pensado há muito tempo, decidi escrever o que penso e o que sinto, pois transmiti-lo oralmente ou por escrito, verbaliza-lo perante os meus semelhantes gera incompreensão e dúvidas quanto à pessoa que sempre fui e que parece que me estou a tornar.
Fui há pouco tempo acusada por duas amigas, e julgo que o termo acusada é o mais correto, fui acusada de estar distante e de não me preocupar com elas. Acusações que derivam do facto de eu não perguntar por elas (...) acusada apenas de partilhar factos, episódios do quotidiano e nada de sentimentos. Não compreendi o que me foi dito, talvez por não concordar e por não encaixar em tal descrição a pessoa que sou.
Como tal, procurei através da troca de correspondência, retomar a amizade franca e espontânea que se desenvolve já faz mais de 15 anos. Mas tudo o que obtive foram meras palavras que apontavam para uma tomada de decisão da minha parte, decisão essa da qual não faço a mínima ideia do que se trate.
(...)
Após troca de correspondência e contínua falha de comunicação e incompreensão, cheguei a um ponto de exílio. Nada poderá ser verdadeiramente dado a conhecer quando existe um dedo acusador por parte do outro. E com é profundamente irritante e de um sufoco atroz, quando uma minúscula ideia ou esboço de forma de ser, é castrado com um olhar, repudiado com um suspiro, ignorado com um "até".
Daí o exílio. Restam-me as palavras de mim para mim. Numa tentativa de procurar manter ma certa lucidez espiritual.
Guardar para mim aquilo que sou. Permanecer exilada na ilha em que me tornei.