domingo, 29 de setembro de 2013

Rebento em mim disto que sou.



  E depois de fecharmos as janelas, o que nos resta? 
  O silêncio de uma vida.
  Como é possível sentir em mim todos os risos, vibrar com todos os raios de sol, quando nunca estive lá, mas a tristeza abraça-me, acarinha-me, como se percorresse, sempre, indefinidamente todos esses momentos.Que não são meus.
  O que resta no silêncio da azáfama que já não se vive?
  Por que é que as palavras que dizemos aos outros não servem para nós, não actuam cmo deviam. Não encaixam. Não servem. Afinal, só dizemos coisas vãs. As palavras não actuam como deviam actuar e eu sofro. Continuo à procura, em busca do meu cálice, que se calhar nunca se perdeu. 
  Sou eu e só eu.
  Sou eu e só eu.
  Não há mais nada exterior.
  Tudo está em mim, o princípio e o fim, a cura e a doença. 
  Do exterior só posso viver sensações. Sentir o mundo, os cheiros, o odor dos dias de sol,  o calor dos risos, a textura do silêncio.

  Uma casa vazia.
  Vou partir.
  Vou partir.
  Vou partir.
  Sinto-me sufocar e preciso de ir.

  Rebento em mim disto que sou.
  Já não tenho como diluir mais tintas. Esgotou-se a cor, os pincéis estão secos.
  Não quero levar nada.
  Quero deixar tudo como está.
  Que tudo permaneça intacto!
  Uma aldeia abandonada de memòrias.
  
  Quero que tudo permaneça intacto para eu voltar.

       ... (pausa)

  Inspiro profundamente.
  Páro.

  Sorrio perante a impossibilidade.

  Eu sou tudo.
  Tudo principia e termina em mim! Comigo. Eu e só eu.
  Haverá sempre uma porta para a minha casa em silêncio.
  E agora vou partir. Vou deixar.

[abril/ 2013 - fotografia e texto MM]
 

esse meio dia


     De certo já imaginaste os dias sem ti. O sol a iluminar a tua cama, que por ventura não seria tua, na tua ausência.
     O silêncio dos papéis, o silêncio dos lápis na sua quietude, o afastar da visão porque a tua presença não está ali.
      Tu não estás. E se não estás, como podes pretender saber como seria o meio dia no teu quarto, o sol do meio dia a entrar no teu quarto, na tua ausência? Talvez não fosse esse meio dia de silêncio, esse meio dia de esperança, esse meio dia abandonado.
     A tua cadeira, rubra de te pressentir; a cadeira sem função, quente dos raios de sol do meio dia.
     Aquele meio dia em que tu não estarás.
     Aquele meio dia encoberto e triste.
     Aquele meio dia que não é possível tu saberes como é.
     Aquele meio dia que não existe. Só existe para ti que não estás lá.
     E por que não é meio dia. Mas sem ti será sempre a eternidade. Sem ti será sempre o meio dia, de um dia de sol, de primavera; um meio dia de esperança, um meio de dia de sol, sem ti, de silêncio. 
     O teu quarto, na tua  ausência. Os dias sem ti. No teu quarto. Os dias sem ti ao meio dia. O teu quarto.
    De certo já imaginaste, o sol do maio dia a iluminar a tua cama. Os dias sem ti.

[Março/ 2013 - Texto e Fotografia MM]