quarta-feira, 31 de julho de 2013

Uma bebida forte

Preciso de uma bebida forte.
Há dias em que acordamos e falta algo, não sei explicar o quê, mas algo não encaixa e dizemos que é das hormonas. Será? 
O pensamento quebra-se, faltam-nos as palavras e o sentido de orientação piora. Não é aconselhável conduzir neste estado. 
Então, depois de um bom banho equacionamos o uso ou não uso de roupa interior e, com o cabelo ainda a pingar, apanhamos um transporte público. Algo que nos leve para o centro da cidade, para um bom tubo de escape, para o anonimato, para o constante passar de sirenes que já não nos atormentam. Andamos com um destino traçado. Sim, saímos de casa com uma causa, uma demanda que justifique caminhar sob o tórrido 31 de Julho. Mas aventuramo-nos por outras ruas, gostamos de ver casas, sentir o cheiro de outras possibilidades, descobrir. Quando a sede e a fome nos tornam ainda mais inquietos, o sofrimento ameunta; a indecisão da escolha do local onde satisfazer o apetite do corpo e da mente pode consumir qualquer um que se encontre neste estado. Após encontrado o espaço, de preferência com poucas pessoas e com banda sonora correspondente, pedimos um batido de morango com gelado de nata. Repousamos finalmente. 
Equacionamos fugazmente vidas alheias, para rapidamente sentirmos a nossa. 
Alguém nos equaciona também. 
Por fim, de volta à estrada, fazemos uma compra desnecessária, não por poder ser algo que se use numa certa comunidade cultural, mas porque nos remete para os 17 anos. Regressamos a casa mais satisfeitos. Mas tudo é temporário... e agora escrevo entre tragos de uma bebida forte. Não importa qual. Desde que seja forte. E lá fora, o pôr do sol.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Diário de 2010 - 3 de Maio



A vontade de estar em silêncio impera.
O círculo fecha-se sobre mim própria.
Sinto-me idiota quando sou simpática e as palavras amigáveis traem a fúria em espiral que domino.
O que faz sentido?
O vento nos cabelos. O sabor do sal na boca. Fechar os olhos e sentir o sol intenso. Ter um arrepio de frio. Sonhar com o saltitar de um melro.
O que custa?
 Respirar de mais. Sufocar na imensidão daquilo que tenho para ser. A incapacidade de me concretiza por ser mais. Sentir a inutilidade do esforço. E o saber da possibilidade de quebrar.
O Exílio.
Uma constante: o não saber o que falar em comunidade. Tenho a sensação que caso tivesse que almoçar com alguém, estar um período de tempo obrigatoriamente com alguém, esse período corresponderia àqueles chamados silêncios de morte. 
Porque há tantas vezes nada para dizer e tanto para ser dito.
O círculo fecha-se. Eu sou o círculo.
Não há pares.
Não há comunhão.
Apenas espaço de mim.
E esse espaço não é compreendido.
Do exterior surgem urgências. Exigências.
E não compreendo o porquê. Afinal o que poderá estar assim tão diferente. O que aconteceu ao mundo que o transtornou de tal forma, de tal maneira, que o levou ao irreconhecimento.
perante os olhos alheios, eu deixei de ser eu.
deixei de ser eu quando procurei restabelecer a Ordem em mim. Porque em paz não me encontrava.
Descansar é preciso.
E parece que os restantes não querem a paz do próximo.
sim, de alguma forma as coisas vão deixando de ter importância.
Mas como comunicar o incomunicável? Como dar a conhecer o que apenas é sentido? Como fazer ver aquilo que eu vejo? Como fazer chegar o batimento cardíaco da serenidade do mar?
De que vale? Se o que me está na alma é apenas considerado como mero facto e não essência daquilo que me preenche?
Perante abismal existência, sorri-se paralelamente; fala-se paralelamente; convive-se paralelamente... sentindo o fosso da união dos dois mundos.
Procura-se estabelecer a ordem.
Girar.  

domingo, 7 de julho de 2013

Diário de 2010 - 1 de Maio

 
 
Inicio aqui, sem corresponder à data exata, aquilo que poderá ser um relato de viagem ao ser. Quando abri esta agenda; e note-se que nunca gostei de agendas, pois é-me difícil manobrar a existência com a ordem cronológica real; que achei curiosa a coincidência da pintura com o título "O Exílio", com o meu estado existencial atual. Foram precisos 31 anos de existência factual para compreender a impossibilidade de me dar a conhecer aos meus iguais.
Cada dia que passa torna-se cada vez mais consciente a pequenez e a mediocridade do ser humano, comparando com os restantes animais.
Voltando ao tema do exílio... tornou-se claro hoje que por mais que eu queira ou tente dar-me a conhecer, ou mais, dar-me a entender àqueles que comigo partilham dores e alegrias, é tarefa praticamente impossível. Por isso, tal como já havia pensado há muito tempo, decidi escrever o que penso e o que sinto, pois transmiti-lo oralmente ou por escrito, verbaliza-lo perante os meus semelhantes gera incompreensão e dúvidas quanto à pessoa que sempre fui e que parece que me estou a tornar.
Fui há pouco tempo acusada por duas amigas, e julgo que o termo acusada é o mais correto, fui acusada de estar distante e de não me preocupar com elas. Acusações que derivam do facto de eu não perguntar por elas (...) acusada apenas de partilhar factos, episódios do quotidiano e nada de sentimentos. Não compreendi o que me foi dito, talvez por não concordar e por não encaixar em tal descrição a pessoa que sou.
Como tal, procurei através da troca de correspondência, retomar a amizade franca e espontânea que se desenvolve já faz mais de 15 anos. Mas tudo o que obtive foram meras palavras que apontavam para uma tomada de decisão da minha parte, decisão essa da qual não faço a mínima ideia do que se trate.
(...)
Após troca de correspondência e contínua falha de comunicação e incompreensão, cheguei a um ponto de exílio. Nada poderá ser verdadeiramente dado a conhecer quando existe um dedo acusador por parte do outro. E com é profundamente irritante e de um sufoco atroz, quando uma minúscula ideia ou esboço de forma de ser, é castrado com um olhar, repudiado com um suspiro, ignorado com um "até".
Daí o exílio. Restam-me as palavras de mim para mim. Numa tentativa de procurar manter ma certa lucidez espiritual.
Guardar para mim aquilo que sou. Permanecer exilada na ilha em que me tornei.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

quarto branco


O repassar compassado dos ponteiros do relógio era sufocante. Há quanto tempo estaria naquele quarto branco, não sabia. A imobilidade tomara conta do seu ser.
Mexer para quê? - pensava ela.
O mínimo movimento levava-a a tocar a parede mais distante. Não era só o tic-tac do relógio que a sufocava, aquelas paredes impediam a vida a qualquer ser.
Já nem sabia se estava na condição apenas de sobrevivência. No fundo, já nem sabia se estava sequer viva.
A janela afinal não era quadrada como tinha visto nos filmes. Aquele quarto era diferente. A janela era um rectângulo, que ocupava horizontalmente toda a parte superior da janela e devia medir de altura não mais de 20 centímetros. Alcança-la era impossível. Se havia mais, além daquelas quatro paredes, não o poderia saber. Viver na ignorância talvez não fosse assim tão mau.

inspirar languidamente...

Quando passava os dedos por aquelas capas, antigas, gastas, a perder cor, parecia que regressava a uma época que não vivi, mas que de alguma forma conhecia. Alguns livros faziam parte da minha infância, brincara com estes na casa onde cresci. Fazem-me viajar para tardes mornas e solarengas, durante as quais a porta que dava acesso ao quintal permanecia aberta todo o dia. Fazem-me viajar para tardes de escrita, tardes dedicadas ao estudo durante as quais a curiosidade aguça o espírito e trepa-se uma estante como um gato.
Primeira coisa a fazer quando se segura nas mãos um livro: abrir ao acaso e cheirá-lo, meter mesmo o nariz até à costura das folhas e inspirar languidamente... que bem que cheiram alguns livros!

(English version)

Inhale languidly...

When I used to pass my fingers to those covers, old, worn out and losing color, it seemed that I had returned to an era that I had not lived, but I somehow knew. Some books were part of my childhood, I played with them in the house where I grew up. They make me travel into the warm and sunny afternoons, during which the door that gave access to the yard remained open all day. They  make me travel into the written afternoons, afternoons devoted to the study during which the curiosity sharpens the spirit and you climb a bookshelf like a cat. 
First thing to do when you hold in your hands a book: open to chance and smell it, put the nose down to the stitching of the leaves and inhale languidly... how good some books smell!