Preciso de uma bebida forte.
Há dias em que acordamos e falta algo, não sei explicar o quê, mas algo não encaixa e dizemos que é das hormonas. Será?
O pensamento quebra-se, faltam-nos as palavras e o sentido de orientação piora. Não é aconselhável conduzir neste estado.
Então, depois de um bom banho equacionamos o uso ou não uso de roupa interior e, com o cabelo ainda a pingar, apanhamos um transporte público. Algo que nos leve para o centro da cidade, para um bom tubo de escape, para o anonimato, para o constante passar de sirenes que já não nos atormentam. Andamos com um destino traçado. Sim, saímos de casa com uma causa, uma demanda que justifique caminhar sob o tórrido 31 de Julho. Mas aventuramo-nos por outras ruas, gostamos de ver casas, sentir o cheiro de outras possibilidades, descobrir. Quando a sede e a fome nos tornam ainda mais inquietos, o sofrimento ameunta; a indecisão da escolha do local onde satisfazer o apetite do corpo e da mente pode consumir qualquer um que se encontre neste estado. Após encontrado o espaço, de preferência com poucas pessoas e com banda sonora correspondente, pedimos um batido de morango com gelado de nata. Repousamos finalmente.
Equacionamos fugazmente vidas alheias, para rapidamente sentirmos a nossa.
Alguém nos equaciona também.
Por fim, de volta à estrada, fazemos uma compra desnecessária, não por poder ser algo que se use numa certa comunidade cultural, mas porque nos remete para os 17 anos. Regressamos a casa mais satisfeitos. Mas tudo é temporário... e agora escrevo entre tragos de uma bebida forte. Não importa qual. Desde que seja forte. E lá fora, o pôr do sol.

